Nostalgia

Não, por mais que eu tentasse, não conseguiria me afastar daqueles dias. Uma mistura de calmaria e medo inocente de perder aqueles momentos não são as palavras mais exatas para descrever o que eu senti - é muito mais que isso, inexplicável gostosa sensação de não haver mais nada no mundo a não ser aquele momento.

Aquilo ficaria guardado para sempre, não tem como mudar esse fato, o que é bem reconfortante - saber que eu vou poder buscar em meus arquivos memoriais aqueles tempos e sentir nostalgia em dias de chuva como esses, por exemplo.

Sentiria, sim, uma espécie de dor interna ao ter essa nostalgia.. Dor a qual eu venho tentado fazer com que pare - por mais que digam que não. Mas, talvez, seja uma dor pela qual eu preciso passar, mesmo não querendo. Não há nada mais que eu possa fazer. Nem meus gritos saem mais - são abafados com um sorriso.

Gostaria que os tempos voltassem. Gostaria de mudar algumas coisas, de sentir menos medo de perder e ficar menos neurótica com isso. Entendo que as coisas não são assim. Amadurecer dói. Mudar, também. Meu sentimento não mudou, muito menos meu pensamento. Ainda sonho com as coisas pelas quais eu passei e gostaria de passar. Eu só mudei o jeito de administrar as coisas. Não posso ser egoísta.. Se é o melhor para ti, então, pode ser o melhor para mim, também.

Eu só - numa frase extremamente escrota de tão hipócrita que soa - não gostaria de vê-lo fazendo as mesmas coisas que eu. Não gostaria, odiaria. Queria ouvir que isso te incomoda assim como a mim.

E, não, nunca superará o que eu tenho por ti.

Carta de suicídio - Virgínia Woolf

No dia 28 de março de 1941, após ter um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril.

Em seu último bilhete para o marido, Leonardo Woolf, Virginia escreveu:

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Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V.

O Quarto de Jacob - Cap I, Pág I

"Assim, naturalmente", escreveu Betty Flanders enfiando os saltos dos sapatos mais fundo na areia, "não havia nada a fazer senão partir".
Brotando lentamente do bico de sua pena de ouro, a pálida tinta azul dissolveu o ponto final; pois sua caneta parou ali; seus olhos tornaram-se fixos, lágrimas inundaram-nos devagar. A baía inteira oscilou; o farol cambaleou; e ela teve a ilusão de que o mastro do pequeno iate do sr. Connor se inclinava, como uma vela de cera ao sol. A sra. Flanders pestanejou depressa. Acidentes eram coisas terríveis. Piscou de novo. O mastro estava ereto; as ondas, regulares; o farol, em pé; mas o pingo de tinta se espalhara

(...)

"mas graças a Deus", rabiscou, ignorando o ponto final, "tudo parece satisfatoriamente arranjado, estamos empacotados como arenques numa barrica, e fomos obrigados a deixar de lado o carrinho de bebê, que naturalmente o senhor não quer permitir..."

Eram assim as cartas de Betty Flanders ao capitão Barfoot - cartas de muitas páginas, manchadas de lágrimas.

O Quarto de Jacob - Virginia Woolf

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