"M
- Não – disse ele. – Não podemos. Deve ser um ou outro, Katherine. Nunca a partilharei com ele."
Existe uma falta de sentido para as coisas, o líquido que você bebe, o cabelo que você corta, o mundo que você vive! ( W.F. Junior)
"M
- Não – disse ele. – Não podemos. Deve ser um ou outro, Katherine. Nunca a partilharei com ele."
Morava ele em um bairro tranqüilo, cidade grande, mas bairro tranqüilo com cara de cidade do interior. E desde menino carregava fincada no peito uma faca. Por acidente tolo ela foi parar em seu peito, cravada.
Mas o entorno da lamina cicatrizou e os médicos acharam melhor não retirar o objeto, corria o risco de o garoto morrer. Com a faca no peito ele teria uma vida normal, retirá-la poderia cortar-lhe o coração. Havia apenas duas recomendações médicas; não jogar futebol, pelo risco de um tombo ou bolada na região periclitante. E nada de emoções muito fortes, a batida acelerada do coração poderia fazê-lo inchar e encontrar o fio da lâmina.
Todos no bairro já haviam se acostumado com aquilo.
Foi então que, aos 24 anos, ele a viu, linda de vestido curto e vermelho. Apaixonou-se no mesmo instante e um segundo depois morreu.
Pedro Nercessian
Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles
espirituoso e devasso,
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
(DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Obra Completa. RJ:José Aguilar, 1972)
No dia 28 de março de 1941, após ter um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril.
Em seu último bilhete para o marido, Leonardo Woolf, Virginia escreveu:
Acha-se apaixonado por qualquer 'trouxa' que aparece em sua frente.
Querido Papai Noel,
Eu tentei me comportar durante esse ano: fiz amigos novos; tirei notas boas - algumas nem tanto; tentei não brigar com meus pais, apesar que, às vezes, tenha sido necessário; ajudei meus amigos quando eles precisaram; tentei melhorar problemas que alguns amigos meus tinham, como sociabilidade e sorrisos, por exemplo; disse 'eu te amo' e recebi de volta; fui à shows que eu idealizei; dançei; cantei; tirei o aparelho; mudei. O resto eu não preciso dizer porque eu sei que você estava me vendo o tempo todo.
Porém, eu sei que eu venho agido de modo estranho, ultimamente. Ando fazendo coisas que eu não faria, antigamente - isso pode ser bom, ou não. Não consigo mais dormir no horário que eu dormia - agora eu viro quase todas as noites - e não aguento mais acabar com a Torta Alemã que eu comia de olho grande, mesmo. Brigo sempre com minha mãe por ela me lembrar de fatos que eu tento esquecer. Acho que, às vezes, eu jogo o meu desespero, o meu grito, pra cima deles, meus pais. Coitados. Eles não mereciam isso, eu sei.
Eu tenho visto, também, que não sou só eu que venho agindo de modo estranho. As coisas que antes faziam sentido, já não fazem mais. Por que algumas pessoas simplesmente não aceitam a verdade? A verdade dói, eu sei. Ela precisa ser ouvida, de vez em quando...
- Também não.Querido Papai Noel,
Eu tenho amigos que não estão bem com algumas verdades. Queria poder saber como ajudá-los. Eu estou me preocupando com eles. Não são um, dois, amigos. São mais! É preocupante, mesmo. O que aconteceu com a gente, afinal? Todo mundo está diferente ou sou eu que estou vendo tudo de outro ponto de vista? Estava cega, antes? As coisas continuam as mesmas e eu que mudei? ...
Querido Papai Noel,Eu queria que as coisas voltassem ao normal, onde todo mundo era feliz - ou faziam um esforço maior para serem e não, simplesmente, aceitavam as condições, não se conformavam - e ninguém sofria dos males sentimentais.
Querido Papai Noel,Eu só queria tê-lo pra mim.

Problemas familiares + Problemas interiores = xAche o X.


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